segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Em código
(Fernando Sabino)


Fui chamado ao telefone. Era o chefe de escritório de meu irmão:
- Recebi de Belo Horizonte um recado dele para o senhor. É uma mensagem meio esquisita, com vários itens, convém tomar nota: o senhor tem um lápis aí?

- Tenho. Pode começar.
- Então lá vai. Primeiro: minha mãe precisa de uma nora.
- Precisa de quê?
- De uma nora.
- Que história é essa?
- Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito. Posso continuar?
- Continue.
- Segundo: pobre vive de teimoso. Terceiro: não chora, morena, que eu volto.
- Isso é alguma brincadeira.
- Não é não, estou repetindo o que ele escreveu. Tem mais. Quarto: sou amarelo, mas não opilado. Tomou nota?
- Mas não opilado - repeti, tomando nota. - Que diabo ele pretende com isso?
- Não sei não, senhor. Mandou trasmitir o recado, estou transmitindo.
- Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito.
- Foi o que eu preveni ao senhor. E tem mais. Quinto: não sou colgate, mas ando na boca de muita gente. Sexto: poeira é minha penicilina. Sétimo: carona, só de saia. Oitavo...
- Chega! - protestei, estupefato. - Não vou ficar aqui tomando nota disso, feito idiota.
- Deve ser carta em código ou coisa parecida - e ele vacilou: - Estou dizendo ao senhor que também não entendi, mas enfim... Posso continuar?
- Continua. Falta muito?
- Não, está acabando: são doze. Oitavo: vou mas volto. Nono: chega à janela, morena. Décimo: quem fala de mim tem mágoa. Décimo primeiro: não sou pipoca, mas também dou meus pulinhos.
- Não tem dúvida, ficou maluco.
- Maluco não digo, mas como o senhor mesmo disse, a gente até fica com ar meio idiota... Está acabando, só falta um. Décimo segundo: Deus, eu e o Rocha:
- Que Rocha?
- Não sei: é capaz de ser a assinatura.
- Meu irmão não se chama Rocha, essa é boa!
- É, mas foi ele que mandou, isso foi.
Desliguei, atônito, fui até refrescar o rosto com água, para poder pensar melhor. Só então me lembrei: haviam-me encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar, como lema, à frente dos caminhões. Meu irmão, que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras, prometera ajudar-me, recolhendo em suas andanças farto e variado material. E ele viajou, o tempo passou, acabei me esquecendo completamente o trato, na suposição de que o mesmo lhe acontecera.
Agora, o material ali estava, era só fazer a crônica. Deus, eu e o Rocha! Tudo explicado: Rocha era o motorista. Deus era Deus mesmo, e eu, o caminhão.


Comentar o texto:

1. Do que trata o texto?
2. Quem são as personagens?
3. Que frase mais chamou sua atenção?
4. O que fugiu do comum nesse texto?

4 comentários:

  1. Vamos lá:
    O texto se trata de um recado que o irmão enviara.
    Os personagens são O chefe de escritório e o personagem principal
    A frase que mais me chamou atenção foi a seguinte:Deus, eu e o Rocha.Porque nos faz pensar quem é o ``Rocha´´,Ainda bem que não sou eu.
    Fugiu do senso pois nos deu a entender que Deus é Deus,O Rocha e o motorista, e eu sou o caminhão que logicamente não fala.
    Valeu!!!

    Fica com Deus prof°
    ABIMAEL ROCHA DE ALBUQUERQUE

    ResponderExcluir
  2. Boa Abimael,

    Sua colocação foi bem estruturada!

    Um abraço,

    Willian

    ResponderExcluir
  3. O que eu entendi deste texto foi:
    Fala sobre as frases que quase sempre estão escritas atrás de um caminhão. Os personagens são o chefe do escritório que passou esse recado muito estranho e o personagem principal (que não se identificou).A frase que mais me chamou atenção foi Deus,eu e o Rocha por que quando lemos esse texto ficamos pensando quem é o "Rocha".
    O que fugiu do senso foi a última frase: "Rocha era o motorista. Deus era Deus mesmo, e eu, o caminhão."
    E para esclarecer tudo isso a última frase quem fala é o próprio caminhão!

    Desejo para a sua família e para o senhor um ótimo final de semana!

    Andréa Silva!

    ResponderExcluir
  4. Obrigado Andréa,

    Ótima leitura do texto.

    Você está de parabéns!!!!!

    Willian Lima

    ResponderExcluir